Quanto vale saber ler e compreender imagens?

 Ler imagens é uma competência que o MEC recomenda que as escolas trabalhem com seus alunos. É clara a necessidade de desenvolvê-la, nesta época em que escrita e imagem estão sempre associadas. Para ser bom aluno, não basta ser letrado, é preciso ser multiletrado!

Então, ensinar a ler textos escritos para alunos cujas famílias não têm práticas de leitura estabelecidas ainda é uma tarefa complexa. Some-se à leitura tradicional a presença constante de imagens fixas e em movimento que povoam nossa cultura, e podemos enxergar a complexidade da tarefa do professor, que também tem que ser multiletrado.

Ao fazer a leitura da imagem abaixo, além de observar planos, traços, cores, figuras, é preciso compreender a foto como documento de uma época. Ao vê-la, imediatamente evocamos cenas de outros tempos, como as vestimentas recatadas, golas altas, mangas compridas,  iguais nas duas mulheres.  Os chapeuzinhos, também iguais, descansando no colo. Uma parece ser o espelho da outra, e ambas espelham a imagem social da mulher no século XIX, momento de consolidação da família burguesa: recato, meiguice, subserviência.

Quanto de preconceito essa imagem dissemina? Quantas de nós, hoje, desejamos replicar esse modelo? Poucas, não é?

Mas como estamos vendo, antes dessa leitura “mais funda”, uma obra de arte em si, ela nos atrai e nos comove, com toda a razão. A beleza da cena, o equilíbrio que ela mostra, as cores, a paisagem ao fundo… Como não ficar atraídos pela imagem, testemunha de uma época que está em nossa história “interna”, mesmo que não tenhamos consciência dela?

Outro aspecto para observar é o fundo da imagem, uma uma paisagem de mar e montanhas que se vê através das janelas de, provavelmente, uma carruagem. Para onde elas estão indo? Para uma estação de veraneio? Ou será que elas estão deixando um lugar de passeio para voltar para casa? Quanto tempo levarão para percorrer o caminho que as levará para o próximo destino?

Para Balkthin, cada texto narrativo escrito (ou imagético, como no exemplo sobre o qual conversamos) é estabelecido a partir de um cronotopo, ou seja um tempo e um lugar específicos:

“…no cronotopo artístico-literário ocorre a fusão dos indícios espaciais e temporais num todo compreensivo e concreto. Aqui o tempo condensa-se, comprime-se, torna-se artisticamente visível; o próprio espaço intensifica-se, penetra no movimento do tempo, do enredo e da história. Os índices do tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é medido com o tempo (2002, p.211).” *

Os “índices do tempo” revelam-se na imagem – ela retrata um tempo já distante,  meados do século XIX. O espaço retratado traz consigo o “modo de ver” (e de viver)  relativo a um tempo. No caso, as moças, companheiras de viagem, estão vestidas de acordo com seu tempo, com trajes iguais, e viajam em um veículo, provavelmente uma carruagem ou algo similar. É possível imaginar a pouca velocidade em que a viagem se dá. Para ajudar o tempo a passar, uma lê, a outra tira uma soneca.  Os trajes iguais podem nos fazer pensar que são irmãs, já que era costume, em outros tempos, vestir irmãos e irmãs com roupas iguais. As semelhanças no modo de prender os cabelos reforça esse pertencimento das duas a um tempo e a um espaço comuns.

Este assunto vai longe! Poderíamos refletir sobre o que esta e outras imagens evocam ao longo de numerosas páginas. O que você acha, os alunos gostariam de refletir sobre o mundo a partir de leituras sociais das imagens? Comente!

Augustus Leopold Egg –  Companheiras de viagem, (1816-1863 – Londres, Inglaterra)

Ler no  trem-Augustus_Leopold_Egg_-_The_Travelling_Companions_-_Google_Art_Project

*BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética – A teoria do Romance. 5ºEd. Annablume Editora: São Paulo, 2002.

24 comentários em “Quanto vale saber ler e compreender imagens?

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  1. A leitura e compreensão de imagens são habilidades fundamentais, principalmente quando a imagem se transforma no instrumento cotidiano de comunicação massificada… Quantas imagens observamos ao longo do dia?
    O que torna umas mais atraentes que outras? Quantas informações cabem em uma imagem? São inúmeros os questionamentos e abordagens a cerca do tema…
    Para mim é um assunto particularmente importante, sou arte educadora com formação em Artes Visuais. Acordo o texto e,com certeza, fará parte das minhas estratégias pedagógicas.
    Agradeço…

    1. A leitura de imagens requer múltiplas habilidades competências, ou seja o multiletramento. Uma imagem provoca os nossos sentidos e nos coloca diante de cenas familiares ou desconhecidas. Essas habilidades e competências são fundamentais para uma efetiva leitura crítico-analítica de mundo, quando estimulamos os nossos discentes nesse sentido, propiciamos a uma ampliação da capacidade leitora, vista em vários aspectos relacionados à construção da imagem e o contexto no qual ela se insere. Isso provoca o autoconhecimento, o conhecimento de mundo e promove o pleno exercício da cidadania.

      1. Andrea Prado,

        Concordo com você em parte. Você tem razão em relação às imagens da arte, como a que ilustra esse texto. Há aspectos que só um especialista pode ensinar. O que ocorre atualmente, especialmente nas leituras virtuais, é que textos noticiosos, de divulgação em geral, ou publicitários, literários etc., associam texto e imagem. Para ler textos assim, não basta que o leitor seja letrado. Para ler textos multimodais, ele tem que ser multiletrado!

        Saiba mais sobre essa perspectiva em nosso blog: https://dialogosassessoria.wordpress.com/2015/04/30/multiletramentos-linguagens-digitais-e-letramento-escolar/

        Volte sempre!

        Abraços,

        Eliana e Heloisa

      2. Sua formação é em que área?Lembro que Profissionais de Letras NÃO tem o direito de tentar USURPAR (roubar) competências da área de Artes. Muito feio isso e anti-ético querer aparecer se passando por profissional de outra área 

  2. Espetacular o texto! Nós temos algumas práticas interessantes sobre leitura de imagens com crianças há cinco anos, entre elas a construção de textos escolhendo imagens que representem sua fala e a leitura em um programa de rádio realizado pela escola.

  3. Trilhando pelas pistas deixadas por Paulo Freire em seu método de alfabetização eu vos pergunto:
    Essa imagem se viesse num livro didático, que no geral não contemplam particularidades das distintas regiões do nosso País, qual sentido faria para crianças ou até mesmo jovens adultos do interior do Estado da Bahia?
    Qual o sentido dessa mediação?

    1. Caro Saulo,

      As imagens, assim como os textos escritos, são lidas particularmente, ou seja, cada indivíduo as compreende de acordo com sua “bagagem” interior, constituída de acordo com sua experiência. Atualmente, as pessoas são bombardeadas com imagens provenientes do mundo inteiro, a cada instante. Não é possível fugir delas. A mente tenta compreendê-las, fica cheia de questões. Nesse momento, o que está com dúvidas procura interlocutor mais próximo para discutir e avançar na compreensão. Em sala de aula, esse interlocutor privilegiado é o professor. Fica nas mãos dele o poder de instigar a curiosidade, dar exemplos, fazer aproximações para que a dúvida seja a chave que abre caminhos para o entendimento mais amplo. Sem mestres não há aprendizado!

      Não se pode mais fugir do ensino dos significados das imagens. Elas são predominantes em todos meios de comunicação.

      Não sei se ajudei…

      Abraços

      Heloisa

    1. Cara Rosa,

      Sem dúvida, o analfabetismo funcional é o mais grave dos problemas educacionais brasileiros. A avalanche de imagens que recebemos – inclusive pessoas pouco letradas – é insidiosa e maléfica quando não se reflete sobre o discurso nelas implícito. Quanto menos letrado, menos capacidade de entender o implícito no texto escrito e nas imagens. Nós, educadores brasileiros, temos muito o que fazer.
      Abraços e volte sempre!

      Eliana e Heloisa

  4. Car@s
    Só tem que ficar claro que isso não é competência da área e profissionais de Letras.
    Aprender a ler imagens é uma das competências e conteúdos específicos a serem ensinados na área e disciplina Artes na escola. (Juntamente com Teatro, Música e Dança). E apesar de ainda ser considerada uma linguagem (não aceitamos que Arte seja só isso e sim um campo de conhecimento autônomo). No caso das imagens por exemplo na Arte chamamos de uma sub-área chamada “Artes visuais” que é um campo de conhecimento e de leitura próprio que difere-se totalmente e é independe da área de Letras e da Linguagem escrita.
    Obrigada.

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